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6.5.13

Cansado de ser chamado de reacionário?

Sente saudades de um tempo que já se foi? Não sabe explicar para o seu filho por que o coleguinha tem dois pais ou duas mães, e não uma família como deve ser? Lamenta que pobres e negros possam entrar nas universidades, concorrendo a vagas que sempre foram suas? Cansado de ser chamado de reacionário por uma gente maluca que quer mudar coisas que para você estão ótimas? Pare de se chatear. Seus problemas acabaram!

Volte a viver em um tempo em que todos sabiam o seu lugar: o da mulher, na cozinha; o do negro, na senzala; o do gay, no armário; e o do pobre, bem longe de você! Agora isso é possível, com a nova Retro-Machine.

Desenvolvida pela Status Quo S.A. especialmente para você, a Retro-Machine permite que você viaje no tempo e volte para a época em que todos os privilégios eram seus e não era  preciso se preocupar com manifestantes querendo mudanças, já que seriam todos recebidos na porrada.

Usar a Retro-Machine é muito fácil: entre na elegante cabine projetada para todos os tamanhos e ajuste a data desejada no painel. Quer viver em uma sociedade onde mulheres que não seguiam a moral e os bons costumes eram queimadas em enormes fogueiras? Fácil! Gire o indicador do tempo para trás, até o painel mostrar o ano de 1450. Não quer se preocupar em dividir seu lugar na sociedade com negros? Ajuste o indicador de tempo para mostrar o ano de 1540.

A viagem é confortável e dura apenas alguns minutos. Você também pode acionar a função Ab-Shaper da cadeira para definir o seu abdômen e perder algumas calorias sem fazer esforço enquanto viaja. Não é incrível? O melhor é que, depois de usar, basta dobrar a Retro-Machine e guardar debaixo da cama. É super compacta!

Pare de perder tempo tentando converter gays e volte para um tempo em que eles não tinham coragem de se assumir. Adquira já a sua Retro-Machine e livre-se do incoveniente de lutar contra as mudanças da sociedade!

Viaje para a época em que a igreja tinha a última palavra, ou para o tempo em que mulheres não tinham voz. Viva em um mundo sem cotas para isso ou para aquilo, onde quem fazia as regras eram coronéis e fazendeiros! Ou ainda explore os ajustes pré-definidos como “Bons Tempos da Ditadura”, “A Terra Não É Redonda”, “Só Homens Ricos Sabiam Ler” e o incrível “Catequize e Escravize um Índio”. Você vai adorar o século XV! Aproveite e fique por lá. Para sempre.

Ligue agora e peça a sua Retro-Machine. Os dez primeiros que ligarem receberão inteiramente grátis uma palmatória de 60 cm para usar em crianças indisciplinadas e o Guia do Reacionário Atemporal, com mais de 2 mil receitas para manter o status quo da sua época preferida. Frete grátis para todo o Brasil.

Retro-Machine. Porque algumas pessoas não pertencem a este tempo.

12.11.12

Às vezes, é preciso ir pra algum lugar...

— Pra onde você vai?
— Vou pro Suriname, filho.
— Lá é legal, pai?
— Não sei.
— Por que você vai pra lá?
— Também não sei, filha.
— Mas você vai mesmo?
— Vou.
— Por quê?
— Às vezes, é preciso ir pra algum lugar.
...
— Por quê, pai?
— Não sei, filho. Acho que já deveria ter ido antes.
— Você não gosta mais da gente?
— Isso não tem nada a ver com vocês dois. É uma coisa minha. Eu gosto de vocês.
— Então, não vai pro Suriname.
— Eu preciso ir.
— Por quê, pai?
— Não sei, filho.
— Mas você vai voltar?
— Sim, eu voltarei. É sempre necessário voltar...
...
— Você vai levar a gente pro Suriname depois?
— Acho que sim. Vocês também vão conhecer o Suriname.
— Quando, pai?
— Não sei, filho.
— Quando você vai?
— Eu vou agora. Estou indo.
— Onde fica o Suriname, pai?
— Não sei muito bem. Acho que fica dentro da gente.

23.10.12

O Direito de Ir e Vir

Outro dia fui ao médico e ele me perguntou se eu ando bastante a pé.
– Muito - respondi. – Pois então ande mais ainda.

O conselho é saudável, mas não sei como se possa andar com as calçadas e o leito das ruas cheios de veículos, sem uma beiradinha para o infortunado pedestre. Fomos definitivamente proscritos da cidade. E não temos para onde ir, pois o progresso chega ao interior, com seu cortejo de máquinas, desde o automóvel até a carreta, passando pela moto, a escavadeira, a britadeira e demais bichos mecânicos incumbidos de obstar o alegre movimento das pernas. Estava pensando na impraticabilidade da prescrição médica, e me pedir de volta o dinheiro da consulta, quando meus olhos se abriram à notícia  de que vai ser criada a Associação de Pedestres do Rio de Janeiro, a exemplo da existente em São Paulo.

Aleluia! Se me dessem licença, gostaria de ser o primeiro associado inscrito, mas receio que, ao se instalar a entidade, não tenha condições de chegar à sede, pelas dificuldades do trânsito. Serei talvez associado telefônico ou postal, caso não me seja negado o direito de ir da minha residência até a agência de correio mais próxima.

A associação, dizem-me, editará uma cartilha do pedestre, que me habilite a desfrutar os direitos da minha condição. Talvez fosse judicioso editar simultaneamente a cartilha do motorizado, para que esta faça a revisão de conceitos até agora norteadores de seu comportamento. Assim, pelo menos reivindicaremos nossos direitos específicos brandindo cartilhas em lugar de palavrões ou argumentos baculinos. Vencerá quem melhor usar sua cartilha.

Apenas, temo que nós, pedestres, não tenhamos chance de tirar do bolso o folheto que será a nossa Bíblia, também pedestre, pois a experiência comprova que o motorizado não dá tempo para o confronto de princípios. Os princípios em geral são nossos, e a rua é deles, senão a cidade inteira.

Sou ainda forçado a meditar na precariedade de uma associação que, como todas as outras, reúne indivíduos e não santos de altar. A maioria esmagadora dos indivíduos, como se sabe, aspira a ser qualquer coisa além do que é. Falamos mal do carro ou do ônibus se ele ameaça atropelar-nos, mas bem que gostaríamos de ser donos de uma traquitana ou de uma empresa de transportes. Evidentemente, é diverso o ponto-devista de quem está dentro do veículo, com relação ao ponto de vista de quem está fora – e a propriedade cultiva seus valores éticos distintos.

Imagina se eu, segundo secretário da Associação, me cansar da posição inconfortável de pedestre e disputar o sorteio de um Chevette. E ganhar. Serei um traidor da classe ou apenas um fraco mental exausto de  pleitear uma vaga de transeunte, sempre recusada?

O pedestre é, afinal, uma espécie que tende a desaparecer, se é que já não desapareceu de todo, e eu estou aqui briquitando nestas teclas sem me dar conta de que também sumi do mapa e sou apenas um fantasma do Segundo Reinado, que açambarcava o espaço infinito de um Brasil sem desenvolvimento, quando o único veículo era o cavalinho maneiro.

Já estava conformado com a etiqueta social de fantasma, quando leio que a Associação de Pedestres de São Paulo é constituída de arquitetos, engenheiros, economistas, pessoas indubitavelmente vivas e atuantes na vida brasileira de hoje, e que a futura entidade carioca vem sendo organizada por um sociólogo. Então, nem tudo está perdido, não sou o “revenant” que supunha ser, e devo admitir que ainda existem pedestres, por sinal qualificados,  e dispostos a defender seus direitos, de maneira organizada e eficiente.

Fora de brincadeira: é criar e tocar pra frente, com ânimo e perseverança. Assim como as associações de moradores de bairro vão conseguindo formar uma consciência comunitária, sensibilizando as autoridades, pois se trata de uma força ascendente, capaz de exercer pressão e comprovar a eficácia do apelo coletivo, uma associação de pedestres, formando em comunhão de vistas com aquelas, cuidará daquilo que interessa a todo o complexo urbano e pede tratamento especial.

Vamos trabalhar pela afirmação (ou reafirmação) da existência do pedestre, a mais antiga qualificação humana do mundo. Da  existência e dos direitos que lhe são próprios, tão simples, tão naturais, e que se condensam num só: o direito de andar, de ir e vir, previsto em todas as constituições... o mais humilde e o mais desprezado de todos os direitos do homem. Com licença: queremos passar.

Crônica de Carlos Drummond de Andrade, O Direito de Ir e Vir, escrita quando tomou conhecimento da organização do núcleo da Associação Brasileira de Pedestres - Abraspe, no Rio de Janeiro; publicada em Jornal do Brasil de 9-5-1982.

13.10.12

Do centrão desconsolado


A Turma do Apagador, os Certinhos, os Bundas de Aço, a Massa e as Criaturas do Abismo
No meu tempo de frequentador de aulas (estudante seria um exagero) era assim. A não ser quando a professora ou o professor designasse o lugar de cada um segundo alguma ordem, como a alfabética e nesse caso eu era condenado pelo sobrenome a sentar no fundo da sala, junto com os Us, os Zs e os outros Vs os alunos se distribuíam pelas carteiras de acordo com uma geografia social espontânea, nem sempre bem definida mas reincidente.

Na frente sentava a Turma do Apagador, assim chamada porque era a eles que a professora recorria para ajudar a limpar o quadro-negro e os próprios apagadores. Nunca entendi bem por que se sujar com pó de giz era considerado um privilégio, mas a Turma do Apagador era uma elite, vista pelo resto da aula como favoritos do poder e invejada e destratada com a mesma intensidade.

Quando passavam para os graus superiores os apagadores podiam perder sua função e deixar de ser os queridinhos da tia, mas mantinham seus lugares e sua pose, esperando o dia da reabilitação. Como todas as aristocracias tornadas irrelevantes.

Não se deve confundir a Turma do Apagador com os Certinhos e os Bundas de Aço. Os Certinhos ocupavam as primeiras fileiras para não se misturarem com a Massa que sentava atrás, os Bundas de Aço para estarem mais perto do quadro-negro e não perderem nada.

Todos os apagadores eram Certinhos mas nem todos os Certinhos era apagadores, e os Bundas de Aço não eram necessariamente certinhos. Muitos Bundas de Aço, por exemplo, eram excêntricos, introvertidos, ansiosos – enfim, esquisitos. Já os Certinhos autênticos se definiam pelo que não eram. Não eram nem puxa-sacos como os apagadores nem estranhos como os Bundas de Aço nem medíocres como a Massa e nem bagunceiros como as Criaturas do Abismo, que sentavam no fundo. Sua principal característica era os livros encapados com perfeição.

Atrás dos apagadores, dos Certinhos e dos Bundas de Aço ficava a Massa, dividida em núcleos, como o Núcleo do Nem Aí, formado por três ou quatro meninas que ignoravam as aulas, davam mais atenção aos próprios cabelos e, já que tinham este interesse em comum, sentavam juntas; o Clube de Debates, algumas celebridades (a garota mais bonita da aula, o cara que desenhava quadrinho de sacanagem) e seus respectivos círculos de admiradores, e nós do Centrão Desconsolado, que só tínhamos em comum a vontade de estar em outro lugar.

E no fundo sentavam as Criaturas do Abismo, cuja única comunicação com a frente da sala eram os ocasionais mísseis que disparavam lá de trás e incluíam desde o gordo que arrotava em vários tons até uma proto-dark, provavelmente a primeira da história, com tatuagem na coxa.

Mas isso tudo, claro, foi na Idade Média.
*Luis Fernando Veríssimo

30.8.12

Tô focado


Como a matéria do Universo, uma carreira política também se forma do nada. Há casos de vocações políticas claras — líderes comunitários com credenciais indiscutíveis para pleitear cargo eletivo, por exemplo — mas em muitos outros casos quem pede votos para começar uma carreira política só tem, como credencial, sua vontade — e sua coragem.

Daí esse patético desfile de candidatos no horário eleitoral, com poucos segundos para se apresentar ao eleitor, tentando arrancar do nada uma justificativa para querer entrar, ou continuar, na política. É fácil fazer pouco de candidatos folclóricos que buscam desesperadamente se destacar dos outros com um apelido ou um slogan pitorescos (lembro de um gordinho que só ficava sorrindo para a câmera enquanto aparecia na tela sua razão para estar ali: “Bom filho”) ou, sem nenhum jeito para aquilo, explorando a notoriedade alcançada em outra atividade, como o futebol.

Mas não se queixe. O que você está vendo é a democracia no seu estágio primitivo, ainda na forma gasosa que precede a criação. E os folclóricos podem surpreender. O Tiririca eu não sei, mas o Romário se revelou um bom e ativo congressista.

Numa eleição passada, numa cidade do interior, um candidato fez campanha com uma única frase. Era um fotógrafo que ganhara uma boa reputação na cidade retratando a sociedade local — reuniões de família, formaturas, debutantes, etc — e decidira ser vereador. Seu slogan era “Tô focado”. A frase aparecia em cartazes e banners do candidato e ele a repetia em comícios — “Tô focado! Tô focado!” — querendo dizer que estava concentrado nos problemas da cidade, que enquadraria, na câmara de vereadores, como enquadrava seus retratos na câmera fotográfica.

Gastou todo o seu dinheiro na campanha, mas perdeu a eleição. E o pior é que depois não faltaram pichadores que percorreram a cidade fazendo pequenas alterações na frase “Tô focado”, entre o “fo” e o “do”, impiedosamente.

Apesar dos desgostos e do ridículo não existe outra maneira de a democracia começar a não ser nesse nível, com o risco de elegermos palhaços e apenas bons filhos. Sempre há a esperança que, no cargo, eles se mostrem bem focados.

Luis Fernando Veríssimo

12.7.12

De areia


O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo.

- Bonito, o seu castelo de areia - disse o homem para o garoto.

O garoto olhou para o homem. Depois falou:

- Não é castelo.

- O que é então?

- Condomínio fechado.

Mais tarde, no grupo que se reunia para um papo à beira-mar, todos mais ou menos da mesma idade, o homem contou que o que lhe parecera serem as torres do muro do castelo na verdade eram guaritas para os guardas do condomínio, segundo o garoto.

- Vejam vocês. Que fim levaram os castelos de areia da nossa infância?

- A realidade do garoto é essa - disse alguém. - No outro dia minha neta quis saber por que a Cinderela não deu o número do celular dela pro príncipe.

- O curioso é o pulo, de castelo para condomínio fechado. Do feudalismo para a paranoia contemporânea, sem etapas intermediárias.

Quinhentos anos de arquitetura ignorados.

- Mas os castelos feudais não deixavam de ser condomínios fechados.

E os condomínios fechados não deixam de ser fortalezas medievais.

- Portanto o garoto, na verdade, é um gênio da síntese.

No dia seguinte o homem avistou o garoto no mesmo lugar da praia. Viu com satisfação que ele dava os retoques finais na sua obra, fazendo escorrer areia molhada da mão nos pontos mais altos da sua construção. Talvez ele tivesse decidido a fazer um castelo, afinal. Castelos eram irresistíveis, seu fascínio atravessava o tempo e as gerações. O homem perguntou se o que o garoto estava fazendo era ornamentos para os torreões do castelo.

- Não - disse o garoto.

- O que é então?

- Antenas parabólicas.

O homem seguiu seu caminho, suspirando.

*Luis Fernando Verissimo

7.4.12

Que fariam os ditos cristãos?

Por Paulo Daniel*

Antes de ser o filho de Deus, Jesus era ser humano como nós e nos relatos dos Evangelhos sempre foi um questionador da ordem vigente, não é nenhuma heresia afirmar que foi um revolucionário.

Nos tempos de hoje, como poderia então imaginar Jesus? Um questionador do monopólio midiático? Um dos líderes do movimento “Occupy”? Um ativista e defensor do meio-ambiente? Um militante incansável pela transparência na política?

Enfim, qualquer dessas lutas poderia lhe render o bônus pelo reconhecimento ao ser humano e em defesa da coletividade, mas também, lhe traria um ônus pesadíssimo por incomodar os donos do poder, a crucificação seria mais do que certa.

Por exemplo; imaginem Jesus indignando-se com as relações políticas e eclesiásticas do Vaticano; ou os pastores solicitando os seu dízimo de cada dia para a sua bonança e não de sua igreja; ou então, condenando a arquitetura financeira mundial e até mesmo citando Marx para justificar que essa é a sua forma acabada, portanto, o fracasso desse sistema pode ocorrer de forma injusta e ainda mais concentrada. Com toda a certeza Jesus não viveria e, até, talvez seria taxado de louco.

Aqueles(as) que se reivindicam cristãos nesses momentos estariam ao lado de quem?

*Paulo Daniel, economista, prof. de economia e editor do Blog Além de economia, no qual publicou seu texto acima.

28.3.12

L.I.V.R.O

Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua seqüência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página.

O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta "ERRO GERAL DE PROTEÇÃO", nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando "browse" permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento "índice" instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S.

Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

Millôr Fernandes. 1924 - 2012

16.3.12

Brasil X FIFA

Instruções da FIFA
Por Luiz Fernando Veríssimo

Chegaram as instruções da Fifa para como devemos nos comportar durante a Copa do Mundo de 2014. Os brasileiros que não respeitarem as recomendações da Fifa podem ser multados ou, dependendo da natureza da falta, sofrerem sanções mais graves. Tome nota.

Começando pela recepção a autoridades e delegações estrangeiras, nos aeroportos: devemos refrear nossa mania de não apenas apertar a mão como dar uma batidinha no ombro, o que denota uma intimidade que não existe e pode constranger o visitante.

A Fifa aceita que se organizem recepções festivas aos estrangeiros, já que, afinal, eles estarão chegando na terra do carnaval, mas pede moderação. As baterias de escola de samba devem se apresentar nos aeroportos só com os instrumentos mais leves, que não reverberem tanto,e as mulatas devem cuidar para não ofender os recém-chegados com trajes muito sumários. Quer dizer, nada de bumbo ou tapa-sexo.

Na questão da vestimenta: a Fifa faz restrições ao conjunto bermudas/shortinhos e havaianas. Não o proíbe totalmente mas prefere que ele não seja usado em ocasiões como coquetéis e recepções oficiais, ainda mais que o Blatter estará de gravata. Saias curtas para mulheres serão toleradas desde que a distância entre cintura e barra da saia não seja menor do que 18 centímetros. Haverá fiscais da Fifa em locais de congraçamento social para fazerem a medida. Os penteados e as tatuagens também serão controlados e a Fifa recomenda que a nação inteira dedique-se a regimes alimentares e exercícios físicos para emagrecer até 2014, porque do jeito que estamos não dá.

A Fifa observou que os brasileiros falam muito alto em restaurantes. Estabelecerá um limite de decibéis que se for ultrapassado levará ao fechamento do estabelecimento e à internação da clientela em cursos intensivos de locução e etiqueta, pelo menos até o fim da Copa.

A Fifa estuda uma mudança no nosso nome, de República Federativa do Brasil para Estados Unidos do Brasil, ou – levando em conta que a língua mais falada por aqui já é o inglês – Estados Unidos da América Legendado. Também pensa em mudar as nossas cores, porque verde e amarelo, francamente. Mas isso fica para outra etapa, quando a Fifa reorganizará os estados brasileiros, inclusive suprimindo alguns, e intervirá na nossa taxa de juros.

Finalmente, a Fifa não está contente com o nosso governo. Acha a Dilma muito mandona, mais mandona do que ela, e já está providenciando sua substituição.

6.3.12

Comunismo às avessas

...
Era o governo de Juscelino Kubitschek. Depois viria Jânio Quadros e, em seguida, João Goulart, quando a luta pela reforma agrária recrudesceu.

Contam que um fazendeiro, assustado com as Ligas Camponesas, reuniu os seus empregados e explicou-lhes que o comunismo era uma desgraça, ninguém tinha direito a nada, tudo o que produzissem lhes seria tomado.

Foi quando um camponês pediu a palavra: “Pelo o que o senhor acabou de dizer, acho que já estamos num comunismo brabo danado”.

Trecho do texto Chega de Mau Humor, de Ferreira Gullar.

23.2.12

Fuga

Não quero ser alarmista, mas as abelhas estão dando o fora. Não sei se você já leu. Começou nos Estados Unidos, onde as abelhas estavam saindo das suas colmeias e não voltando. Mas o fenômeno se repete no mundo todo. Ninguém sabe para onde vão as abelhas que não voltam. Não morrem, o que poderia ser atribuído aos agrotóxicos. Desaparecem. Se veículos espaciais estão vindo buscá-las (talvez os mesmos que as trouxeram), ainda não se viu nenhum.

As abelhas têm um apurado senso de orientação e poder de comunicação. Transmitem ao resto da colmeia as exatas coordenadas de um campo florido descoberto, através de uma dança. Talvez os apicultores já estivessem notando há tempo notado uma mudança nos movimentos das danças, e não dado a devida importância. Talvez as abelhas já estivessem dançando pavanas para um mundo em agonia há algum tempo.

A verdade é que elas parecem saber algo que nós não sabemos.

Luis Fernando Veríssimo

15.2.12

Vida a dois

Carlos Eduardo Novaes*

Juro que nunca entendi muito bem este casamento do Capitalismo com a Democracia. É claro que ambos precisariam encontrar um parceiro diante da impossibilidade de tocarem suas vidas, sozinhos. O Capitalismo é um sistema econômico e depende de um regime político que o mantenha de pé e lhe permita ganhar dinheiro. Já a Democracia é apenas uma boa moça que necessita de alguém que a sustente e pague suas despesas.

Digamos que o Capitalismo entrou em um desses sites de relacionamento de casais e deu de cara com a Democracia.

— É com essa que eu vou! — berrou o Capitalismo.

Casaram-se e, como acontece nos casamentos, os primeiros anos foram de juras de amor eterno. Com o tempo, porém, as crises começaram a pipocar. O Capitalismo sempre foi um tipo instável, temperamental, sem princípios sólidos, que gosta de caminhar sobre suas próprias regras. A Democracia por um momento chegou a pensar que ele só se casara com ela para desfrutar do seu ideal de igualdade.

Tiveram dois filhos, a Bolsa e o Mercado. A Bolsa saiu ao pai, um temperamento ciclotímico e um comportamento cheio de altos e baixos que provocou uma crise monumental em 1929 e quase levou o casal à separação. O Mercado, filho querido, cresceu e passou a tomar conta dos negócios do pai. Ganhou fama, e sempre que surgia um problema, alguém gritava: “Deixa que o Mercado resolve!” Às vezes, o Mercado metia os pés pelas mãos, o pai entrava em crise e logo chamavam a mãezona.

Nos primeiros anos do século passado, um casal gay — Comunismo e Totalitarismo — instalou-se na casa ao lado, separada por um muro, e passou a infernizá-los. Barbudos, mal encarados, não havia um dia que não aparecessem na janela para xingar os vizinhos. Foram mais de 70 anos de difícil convivência, uma guerra surda (chegou a ser fria).

Até que no final dos anos 80 o muro veio abaixo. Sua queda expôs a indigência da casa desmascarando as bravatas do casal gay (que se mudou para uma casinha no interior de Cuba). O Capitalismo
soltou foguetes.

Não demorou muito, em 1997 — menos de 10 anos após a queda do muro — Bill Clinton, o afilhado preferido do Capitalismo, alertou o padrinho para não ir com tanta sede ao pote.

— Eu quero é mais! — bradou o pai do Mercado, se sentindo dono do mundo.

Não deu outra: jogando solto, sem ter que dar satisfações a ninguém, o Capitalismo perdeu a noção de limite e acabou mergulhando em uma crise existencial que parece não ter fim. A Democracia achou que deveria alertá-lo para o descontrole nas finanças do casal.

— Você não se mete — disse ele. — Você não entende nada disso!

Hoje ele respira por aparelhos. Uma junta médica reunida em Davos para diagnosticar seus males admitiu que para recuperar a saúde (e o prestigio) o Capitalismo teria que promover mudanças profundas no seu comportamento.

Sua mulher tenta ajudá-lo:

— Você precisa ser mais humano, mais solidário, mais preocupado com o meio ambiente. Deixar de pensar tanto em dinheiro, ser menos ganancioso...

— Como? — reagiu ele, certo de que não vai morrer. — Se eu mudar em tudo que estão me pedindo vou deixar de ser o Capitalismo! É isso que você quer? É isso?

A Democracia não respondeu. Virou-lhe as costas e saiu resmungando:

— Eu devia ter me casado com o Socialismo!

*Carlos Eduardo Novaes é escritor.

2.2.12

A despedida do Trema ¨

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim.

Eu sou o trema.

Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos!

Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio… A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O dois-pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até o Cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W. “Kkk” pra cá, “www” pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que, aliás, deveria se chamar TÜITER.

Chega de argüição, mas estejam certos seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo” de medo.

Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o Alemão, lá eles adoram os tremas.

E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar.

Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus..

Trema¨

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A despedida do Trema¨ é de autoria de Lucas Silva - do K-Blog 

18.12.11

Na água

Luis Fernando Verissimo

Toda a nossa vida passa diante dos nossos olhos quando estamos nos afogando. É verdade. Vários relatos de quase-afogados confirmam isto. Você se lembra de estar no ventre da sua mãe, flutuando dentro da bolsa dágua. Dizem que, do momento da concepção até o parto, o homem recria no ventre materno toda a evolução da sua espécie.

O espermatozoide que chega ao óvulo é como aquela primeira ameba que flutuava no mar primevo, recebeu uma descarga elétrica e começou a se reproduzir e a evoluir e milhões de anos depois deu na Patrícia Pillar. A vida começou no mar. O homem é um fruto do mar. Ainda temos no sangue restos de água salgada. E o feto de muitos peixes é igual ao feto do homem.

Até o seu segundo mês de vida, nada está decidido. Você tanto pode ser um peixe quanto uma pessoa. Um linguado ou um advogado. Imagine a cara do seu pai, no caso de alguma confusão genética, quando lhe anunciassem: Parabéns, é um golfinho.

O parto, o rompimento da bolsa d’agua, é a nossa chegada à terra. A ameba já transformada em réptil. E a partir daí você lembra de tudo. Do seu primeiro banho. Das primeiras fraldas. Da água benta do seu batismo. E mais: de toda a memória aquática da humanidade. Os descobrimentos, os grandes naufrágios. A passagem das tribos de Israel pelo Mar Vermelho. O Dilúvio. Moby Dick. O Príncipe Submarino.

O Capitão Nemo. A Esther Williams. Você se lembra de andar de quatro, depois andar ereto, e de virar um aquário sobre a sua própria cabeça com peixinho e tudo. Lembra da vez que caiu no chafariz da praça. Da primeira vez que viu um rio. Do primeiro xixi na piscina. E da primeira vez que viu o mar. E ficou paralisado na frente do mar, que parecia uma coisa viva. Até então, a maior coisa viva que você conhecia era o seu tio Afonsão, e o mar era maior do que seu tio Afonsão.

Ex-quase-afogados contam que a gente se lembra das coisas mais incríveis quando toda a nossa vida passa diante dos nossos olhos. Um se lembrou de onde tinha guardado uma boina basca que comprara numa viagem à Europa. Outros se lembravam de números de telefone. Outro, de cenas de filmes.

Outro, de trechos de música. Teve um que se lembrou de toda a letra do Cha-cha-cha de la Secretaria. E um, que quase não se salvou, queixou-se porque tinha revivido toda a sua infância e adolescência, lembrando-se de tudo, até do nome do cachorro do Vigilante Rodoviário – menos das suas aulas de natação.
...
Luis Fernando Verissimo

6.12.11

Os pássaros


Meninas e meninos, a briga entre os bichos da floresta era sobre “dieta”: quem come o que, quem come quem...

Os vegetarianos formaram o Partido das Bananas. Os carnívoros pensaram em formar o Partido da Linguiça, mas logo, aconselhados pelo Camaleão, adotaram a tática da dissimulação e deram ao seu partido o nome de Partido dos Abacaxis, que, graças à ingenuidade dos membros do Partido das Bananas, que acreditaram que, entre banana e abacaxi, não havia diferença, ganhou as eleições.

Empossado o Congresso, os representantes elegeram o seu presidente, a Hiena, sempre com um sorrisinho de Monalisa no focinho.

Na sua posse, ela fez um discurso sobre as excelências da dieta vegetariana. Citando o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, que disse que somos o que comemos, ela declarou: “Vacas comem capim, portanto são capim. Macacos comem banana, portanto são bananas. Galinhas e patos comem milho, portanto são milho. Assim, onças que comem vacas estão, na verdade, comendo capim. Uma cobra que come um macaco está, na realidade, comendo bananas. Um gambá que come galinhas está, na realidade, comendo milho. São todos, portanto, vegetarianos. Assim sendo e em cumprimento às promessas que fizemos no período eleitoral, proclamo a lei de que todos os animais terão de ser vegetarianos. Viva a República Vegetariana!”.

O discurso da Hiena foi seguido por um festival gastronômico em que hienas, onças, lobos, cães vadios, cobras, gambás e gatos vegetarianamente churrasqueavam vacas, veados, macacos, galinhas e passarinhos. A lei é clara: todos os animais são vegetais transformados...

Aí os membros do Partido das Bananas perceberam que haviam caído numa armadilha. Leis são armadilhas. Uma vez feitas, não podem ser abolidas, a menos que sejam revogadas por aqueles que as fizeram.

E, olhando para seus gordos representantes no Congresso, perceberam que nenhum deles estava disposto a trocar costeletas, lombos e linguiças por alface, couve e cenoura... Concluíram, então, que, com aquele Congresso de carnívoros, a reforma política jamais seria realizada.

Foi então que um leitão rechonchudo chamado Alfred Hitchcock pediu a palavra. O dito leitão ponderou: “Eu não posso enfrentar a onça. As galinhas não podem enfrentar os gambás. Os cordeiros não podem enfrentar os lobos! Mas os pássaros! Milhares de pássaros em seus voos rasantes e bicos pontudos! Que poderão fazer as onças, os gambás e os lobos contra o ataque de milhares de pássaros? Vamos chamar os pássaros! Eles são vegetarianos! São nossos aliados!”.

E assim aconteceu. Vieram então, em bandos que tapavam o sol, milhares de andorinhas, sabiás, pardais, tico-ticos, periquitos... Invadiram o edifício do Congresso. Foi um pandemônio. O espaço escureceu. O barulho dos pios e dos gritos dos pássaros era ensurdecedor. Milhares de bicos bicando sem parar em mergulhos certeiros.

Além disso, por onde iam, soltavam seus excrementos moles e fedidos que escorriam pelos sorrisos de Monalisa dos excelentíssimos.

Os representantes gritavam histéricos: “Isso é conspiração dos meios de comunicação”. Os gambás, as onças, os lobos, os cães vadios e as hienas fugiram e nunca mais voltaram, com medo de que os pássaros lhes furassem os olhos...

Isso, meninos e meninas, tem o nome de revolução. Revolução é quando os eleitores resolvem, eles mesmos, demitir os seus representantes que os traíram e fazer, eles mesmos, as leis. Portanto vamos chamar os pássaros...

*Rubem Alves, educador e escritor.

17.11.11

Vargas Llosa: O cheiro da pobreza

O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica. É a privada

Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. "À vontade, doutor", disse ele gentilmente. “O senhor quer urinar ou defecar?”. Respondi que a primeira alternativa. Sua curiosidade era acadêmica, porque o “banheiro” do posto era um cercado exposto à intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor estonteante.

A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas, intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia e progresso de Amartya Sen - um economista que não acredita que o progresso se resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o que significa - na prática - o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de vida alto ou médio.

A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta - uns 2,6 bilhões de pessoas - não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de “falta de acesso ao saneamento”, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo.

Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o sistema das chamadas "privadas voadoras", sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens.

Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada 1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte.

Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas, na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores comerciais, a preços exorbitantes.

Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) “pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades - e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York”. Esse preço desigual faz com que os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda.

Não resisto a citar essa estatística do relatório: “Quando um europeu puxa uma descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas áridas do mundo em desenvolvimento”. E também a estimativa de que, com a água poupada caso os "civilizados" fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes, um continente inteiro de “bárbaros” poderia tomar banho.

À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada.

Em “Os miseráveis”, Victor Hugo escreveu que “os esgotos são a consciência da cidade”. Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos, longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto.

Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência, sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem.

Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. “Nascemos entre fezes e urina”, escreveu Santo Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.

*Jorge Mario Pedro Vargas Llosa escritor, jornalista e político peruano. Entre seus muitos títulos de ficção, jornalismo e ensaio, estão: A Linguagem da Paixão (2002) e Paraíso na Outra Esquina (2003). Em 2010, Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura. www.mvargasllosa.com
Artigo originalmente publicado na Revista Piauí_5

7.11.11

As novidades - estadunidenses

Por Luis Fernando Veríssimo

A maior novidade da política americana até anteontem era o Tea Party, assim batizado para lembrar um episódio de insubordinação dos colonos à coroa inglesa, em 1773. O protesto original foi contra a tributação escorchante do chá produzido nas colônias e outras arbitrariedades do império e acabou sendo um dos principais antecedentes da guerra pela independência dos Estados Unidos, que estourou três anos depois. 

O Tea Party atual é contra aumento de impostos, principalmente para os ricos, a favor de um governo mínimo, contra programas sociais e a favor de um fundamentalismo religioso que condena o aborto e a tolerância com gays — enfim, todo o manual conservador — e contra um poder centralizado e distante, agora com Barack Obama no lugar do rei George III.

Isto foi até anteontem. Hoje a novidade é o movimento chamado Ocupar Wall Street, que se alastra pelos Estados Unidos e lembra as manifestações por direitos civis e contra a guerra no Vietnã de anos atrás. O movimento americano se parece com os protestos na Europa contra as medidas de austeridade para enfrentar a crise financeira porque a revolta dos dois lados é contra a mesma injustiça básica: quem está pagando pela crise são os que não têm culpa alguma, enquanto os culpados não só não estão pagando como estão ganhando como nunca. Mas é diferente na medida em que os americanos têm uma Bastilha clara para atacar, mesmo de longe: Wall Street, o coração do capitalismo financeiro e o símbolo mais evidente da injustiça, onde os lucros e as gratificações de executivos crescem em proporção inversa às perdas de renda e de emprego da maioria da população.

O OWS também não pode ser chamado de movimento anti-Tea Party porque ainda não se sabe se vai durar ou ser apenas um espasmo de indignação, enquanto o Tea Party está institucionalizado, já elegeu uma porção de reacionários para o Congresso e influencia todos os candidatos declarados dos republicanos às eleições presidenciais do ano que vem. E o OWS não pode defender o Baraca dos ataques da direita, que o chama de socialista disfarçado, porque também o considera um dissimulado, no caso conservador. Diz-se mesmo que OWS está nas ruas fazendo o que Obama deveria estar fazendo na Presidência, enfrentando os privilégios de Wall Street e cobrando do mercado financeiro desregulado sua culpa na crise, ou no mínimo um pouco de recato na sua festa.

Mesmo que não dure, o OWS é uma bem-vinda novidade num país em que a direita parecia ter monopolizado o discurso político e a mobilização da rua. A Bastilha não vai cair, claro. Mas é bom ouvir um som novo à sua volta.

Luis Fernando Veríssimo.

3.10.11

Humor inteligentemente crítico é possível criar e recriar


TV Pirata: Pai, sou negro!


Parafernalha: Tempos Modernos

Esses dois vídeos revelam como é possível produzir humor com inteligência e crítica.
Diferentemente das nada-engraçadas “piadinhas” preconceituosas, racistas, misóginas...
feitas por um tal Rafinha Bastos e cia.

27.9.11

Mia Couto: “Murar o medo”


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação... Precisamos de intervenção com legitimidade divina... O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida... A verdade é que... pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente... Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Mia Couto

22.9.11

“ônibus-dependetes”

Eh, Dia Mundial sem Carro?! É todo dia pra muita gente trabalhadora da grande Floripa e demais cidades deste país, que são “ônibus-dependetes”- no sentido da crônica |abaixo| da jornalista-militante Elaine Tavares. Até que um dia a coisa exploda... Ah, e esta explosão social, obviamente, não vai chegar de bici...
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Sou ônibus-dependente
Por Elaine Tavares

Tá bom. Eu confesso. Uso drogas. Mas não é porque eu queira. Sou obrigada. E quem me obriga é a municipalidade. Sem dó ou piedade, a prefeitura de Florianópolis, impõe a mim e a mais umas 200 mil pessoas, todos os dias, o transporte coletivo desintegrado. E fique esperto. Destrói a gente mais do que o crack. Haveria de a RBS (TV local) fazer uma campanha contra essa porcaria.

Nessas três últimas semanas, em que não para de chover, a coisa fica ainda pior. O terminal urbano é o saguão do inferno. As pessoas chegam molhadas e emburradas. Porque sabem que haverão de passar ali algumas horas de horror. Eu pego o ônibus para o sul e sei que em menos de duas horas não percorrerei os 25 quilômetros que me separam de casa. Quem vai para o norte terá a mesma sorte. Nas filas quilométricas, que serpenteiam por dentro do terminal, as caras das gentes são de completo desconsolo. Em algumas pessoas se vê um quase descontrole emocional. Não há espaço para o sorriso ou para a delicadeza. O ódio é a nossa herança.

Dentro do ônibus segue o desastre. Vidros fechados, pessoas tossindo, a raiva aumentando. Como os coletivos são poucos as pessoas se amontoam e a maioria vai em pé. O trajeto é curto, mas a espera é longa. Quando chega ao famoso “elevado”, construído com a promessa de “acabar com as filas”, o ônibus para. E ali fica, se arrastando, por quase 30 minutos. Depois, ao entrar na rodovia que vai para o sul, a lentidão é de matar. O povo já está bufando, o estresse elevado à última potência.

Quem está nas paradas do caminho vive outro tipo de desespero. Além da espera por mais de hora, em pé, sequer há abrigo. E quando tem, é tão mal feito que nos dias de chuva molha mais dentro do que fora. Como o “busão” demora a passar, a parada vai enchendo e, sem organização, quando ele assoma, o povo só falta se estapear para entrar primeiro.

“Acho que a prefeitura deveria distribuir pipoca nas paradas”, brinca um usuário desavisado, ainda não-dependente da terrível droga. É o que o capitalismo faz, alivia a tensão. Como nas casas bancárias. A solução encontrada para as filas gigantes foi colocar banco. Ideia genial. O cara espera sentado. Aí reclama menos. Fica a ideia para o prefeito Dário: distribuir pipoca.

Essa é a sina dos trabalhadores. Sair de casa de madrugada, enfrentar as filas, o desconforto, trabalhar feito um escravo e voltar para casa amargando toda essa frustração. Quem sai do serviço às sete da noite só chega lá pelas nove, “morto”. Como ser alegre com os filhos, como fazer um chamego no seu amor, como estar bonita e cheirosa, como? Não há tempo sequer para sonhar. E assim segue a vida na cidade grande. O bonde dos drogados, dos ônibus-dependentes. Até que um dia alguém exploda, feito pipoca. Aí os âncoras dos telejornais vão falar da “terrível e incompreensível baderna”, como a que aconteceu em Londres.

Até parece que as revoltas populares brotam do chão! Não foi à toa que a revolta da Catraca aconteceu aqui, nesta ilha de magia. E não é sem razão que as revoltas espreitam em todos os lugares onde a vida nos é tomada.